Mogi das Cruzes registra somente uma adoção de adolescente (12–15 anos) em um ano e meio

 Mesmo representando a maior parte das crianças acolhidas em abrigos, adolescentes de 12 a 15 anos enfrentam enorme dificuldade para serem adotados em Mogi das Cruzes (SP). Entre 2024 e o primeiro semestre de 2025, apenas uma adoção nessa faixa etária foi formalizada no município, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

No mesmo período, 40 adoções foram concluídas na cidade — 34 em 2024 e 6 até junho de 2025. Isso significa que a única adoção de um adolescente entre 12 e 15 anos representa apenas 2,5% do total. A baixa adesão à chamada "adoção tardia" chama atenção diante do perfil predominante nos abrigos locais.

Adolescentes são maioria nos abrigos, mas minoria nas adoções

Atualmente, Mogi das Cruzes tem 100 crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional, sendo que a maior parte — 25 deles — está justamente na faixa dos 12 aos 15 anos. Mesmo assim, o número de adoções entre esses adolescentes é praticamente nulo.

Veja a distribuição por faixa etária dos acolhidos:

  • 0 a 3 anos: 14

  • 3 a 6 anos: 15

  • 6 a 9 anos: 11

  • 9 a 12 anos: 16

  • 12 a 15 anos: 25 (faixa predominante)

  • 15 a 18 anos: 19

Ao mesmo tempo, o número de crianças e adolescentes aptos para adoção é baixo: apenas 16, o que reforça o abismo entre a realidade do acolhimento e o perfil buscado pelas famílias pretendentes.

Perfil dos adotados revela preferência por crianças pequenas

Entre os 40 casos de adoção registrados em Mogi no último ano e meio, o perfil predominante foi o de crianças de até 3 anos, conforme os dados do CNJ:

Faixa etária das crianças adotadas:

  • 0 a 3 anos: 23

  • 3 a 6 anos: 6

  • 6 a 9 anos: 4

  • 9 a 12 anos: 5

  • 12 a 15 anos: 1

  • 15 a 18 anos: 1

Perfil racial (2024):

  • Brancos: 16

  • Pardos: 13

  • Pretos: 5

  • Indígenas, amarelos e quilombolas: nenhum

Gênero:

  • Meninos: 18

  • Meninas: 16

Por que adolescentes são menos adotados?

Segundo a advogada e professora Amanda Helito, especialista em Direito de Família, não há nenhuma barreira legal para a adoção de adolescentes. A dificuldade é cultural e emocional. “Muitos pretendentes temem dificuldades de adaptação e preferem adotar crianças pequenas, acreditando que o vínculo será mais fácil”, explica.

Outro fator complicador é o grande número de grupos de irmãos acolhidos. A legislação prioriza a adoção conjunta desses grupos, o que exige das famílias maior preparo e estrutura. Atualmente, 59 crianças e adolescentes abrigados em Mogi fazem parte de grupos de irmãos, incluindo:

  • 1 grupo com 7 irmãos

  • 2 grupos com 6 irmãos

  • 1 grupo com 5 irmãos

“O ideal é que os irmãos não sejam separados, mas poucas famílias têm condições de adotar mais de uma criança ao mesmo tempo”, aponta Amanda.

Descompasso entre pretendentes e perfil disponível

Embora 119 pretendentes ativos estejam cadastrados no município, muitos deles buscam crianças que não correspondem ao perfil real das disponíveis. A maioria deseja bebês ou crianças pequenas, saudáveis e sem irmãos. Já as crianças aptas geralmente são mais velhas, têm irmãos ou alguma condição de saúde.

Apenas 16 das 100 crianças e adolescentes abrigados estão juridicamente aptas para adoção. Isso porque o processo só é possível após o esgotamento de todas as tentativas de reintegração familiar. Muitas ainda estão vinculadas a processos judiciais ou aguardando avaliação sobre a possibilidade de retorno à família biológica.

“A criança só entra em processo de adoção quando está claro que não há possibilidade de retorno à família de origem. Esse processo é criterioso e pode levar anos”, explica Amanda.

Como mudar esse cenário?

Para a especialista, a saída está na conscientização e na aproximação. “Campanhas informativas podem ajudar a mudar a percepção sobre a adoção tardia. Também seria fundamental que o Poder Judiciário investisse mais em programas de aproximação entre famílias e adolescentes, permitindo que o vínculo seja construído com tempo e apoio.”

Amanda acredita que, com orientação e apoio, mais famílias poderiam considerar a adoção de adolescentes. “Eles também desejam pertencer a uma família, construir laços e ter um futuro digno. É preciso olhar para além da idade.”

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato