“Aqui, o foco é cuidar enquanto há vida” – no único hospital de cuidados paliativos do SUS
Naquela segunda-feira de início de junho, o sol voltou a brilhar em Salvador após dias de chuva intensa. No Hospital Mont Serrat, único no Brasil dedicado a cuidados paliativos pelo SUS, o ambiente respira acolhimento — longe da lógica da emergência ou da UTI.
Aos 90 anos, Ayrton dos Santos Pinheiro estava acomodado em uma das três camas de um quarto espaçoso e ensolarado, de onde se via o mar da Ponta de Humaitá, no bairro Mont Serrat. “Eu corria da Humaitá até Itapuã”, relembrou, emocionado. Natural de Pojuca e pioneiro como corredor em maratonas, ele encontrou ali um refúgio que ativou memórias — e renovou suas forças.
Instalado em um antigo casarão do século XIX, ao lado da Igreja do Senhor do Bonfim, o Mont Serrat oferece 64 leitos a pacientes com doenças graves, sem previsão de cura. O objetivo: aliviar o sofrimento físico, psicológico e espiritual, sem acelerar nem prolongar a morte.
“Perguntamos sobre o time que torce, a comida que gosta, se quer fazer a barba”, explica a médica Karoline Apolônia, coordenadora do Núcleo de Cuidados Paliativos da Bahia. “Nosso foco não é a morte. O foco é o cuidado durante a vida.” O filho de Ayrton, Ayrton Junior, concorda: “O presente é o que importa. Um dia de cada vez.”
Sem UTI, mas com acolhimento
O Mont Serrat não possui pronto-socorro nem UTI — o que está em linha com sua missão. “Colocar esse paciente em uma UTI seria como fazê-lo correr uma maratona”, compara Karoline. Em vez disso, os pacientes são incentivados a aproveitar cada momento simples, como contemplar o pôr do sol na hora certa.
Para ingressar no hospital, é preciso passar por uma UPA, possuir diagnóstico de doença grave com estimativa de até seis meses de vida, e já ter vivenciado conversas difíceis sobre prognóstico irreversível e a impossibilidade de internação em UTI.
Um dos espaços mais carregados de emoção é o necrotério central, conectado à chamada "Sala da Saudade", onde famílias se despedem, acompanham o corpo e recebem acolhimento — com sofá, luz indireta, café e uma frase de Ana Cláudia Quintana Arantes estampada na parede: “Um minuto de silêncio. Preciso ouvir meu coração cantar.”
Transformação e legado
O hospital é resultado do Núcleo de Cuidados Paliativos da Bahia, criado em 2019. No início de 2024, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS e tornou o tema disciplina obrigatória nas faculdades de medicina.
O diagnóstico era claro: entre 20% e 30% dos pacientes da rede pública da Bahia necessitavam de cuidados paliativos. Assim, o Mont Serrat nasceu com a visão de acolher sem deixar que o tempo ali fosse só de fim — alguns pacientes melhoram o suficiente para seguir os tratamentos em casa ou voltar para suas famílias.
O tempo médio de internação é de cerca de oito dias. O hospital atua também como um elo com ambulatórios e com o cuidado domiciliar, garantindo acompanhamento contínuo.
Depoimentos que emocionam
Donizete Santana de Oliveira, diagnosticado com câncer após um AVC, sentia dores insuportáveis em outro hospital público. “Ele estava quase morto”, conta a companheira Ângela. No Mont Serrat, ele foi acolhido até falecer 20 dias depois. “Eles nos ensinaram a ter um fim sem dor, sem grito, sem choro”, lembra Ângela, emocionada.
Para a aposentada Helita Maria, de 86 anos, o tratamento foi tão cuidadoso que ela brincou: “Sou tratada como um bebê.” Às gargalhadas, ela desfrutou dos últimos dias envolvida no carinho da equipe, desde seguranças até psicólogas — todos treinados para lidar com empatia.
Marina Alencar, de 79 anos, com demência avançada, também foi acompanhada com dignidade por sua família, que viu no Mont Serrat o único lugar público capaz de proporcionar cuidados paliativos com conforto e humanidade.
Planejando um futuro digno para todos
Com 430 profissionais, o hospital foi planejado para atender a uma população envelhecida: a fatia dos brasileiros com mais de 60 anos subiu de 8,7% (2000) para 15,6% (2023), e pode alcançar 40% até 2070.
“Se não nos prepararmos como sistema, não conseguiremos cuidar dessas pessoas que estão envelhecendo”, alerta Karoline, lembrando que o Mont Serrat opera em ocupação quase máxima — e que há demanda por mais dessas unidades.
O mar como altar final
Na ponta do casarão, junto ao píer sobre o mar, o sol poente é um ritual. Para muitos ali, como Ayrton, aquele cenário — palco de despedidas — se torna um último presente: “Mais tarde, vou ver o pôr do sol. Que maravilha.”
Ali, onde antes havia uma capela, o mar virou o altar simbólico de um hospital laico, mantido pelas Obras Sociais Irmã Dulce. Em um momento sereno, dona Maria, de 78 anos, bebeu água em seu aniversário, rodeada pela família e equipes — uma despedida digna e cheia de humanidade.





